quinta-feira, 4 de maio de 2017

ANTONIO HENRIQUE WEITZEL E O FOLCLORE

HOMENAGEM
ANTONIO HENIQUE WEITZEL, PESQUISADOR DE FOLKCOMUNICAÇÃO DA UFJF



O professor Antônio Henrique Weitzel, ex-diretor do Museu de Folclore da UFJF e um dos membros fundadores da Comissão Mineira de Folclore, é autor de vários de pesquisas na área de Folkcomunicação.  


Alguns dos livros publicados por Antonio Henrique Weitzel

Seus livros abordam temas como frases populares, como as frases de banheiro, literatura oral, crendices, superstições, festas populares etc. Participa intensamente de programas de TV sobre as questões do folclore mineiro e brasileiro.

Atualmente, mesmo aposentado como professor da UFJF participa de congressos e seminários sobre folclore e cultura brasileira.


MUSEU DE FOLCLORE SAUL MARTINS


EM VESPASIANO, MG
MUSEU DE FOLCLORE SAUL MARTINS

Pesquisadores, folcloristas e estudantes realizam uma visita guiada ao MUSEU DE FOLCLORE SAUL MARTINS. Foi na última quinta-feira. A visita fez parte da programação oficial da Comissão Mineira de Folclore e o Centro de Tradições Mineiras/Secretaria de Estado da Cultura. A diretoria da Comissão Mineira de Folclore (CMFL) esteve participando do evento e propondo novas parcerias e atividades culturais.



Museu de Folclore Saul Martins, em Vespasiano




POR SEBASTIÃO BREGUEZ


VESPASIANO (MG) - Localizada na região metropolitana de Belo Horizonte, a 28 quilômetros da capital, Vespasiano é cidade industrial, situada na Zona Metalúrgica, mas tem intensa atividade cultural, principalmente, ligada ao folclore. Fato curioso é que lá, e não em Belo Horizonte, situa-se o Museu Mineiro de Folclore que leva o nome de seu organizador, Saul Martins, antropólogo, professor, doutor em Ciências Sociais, hoje aposentado da UFMG. Saul junto com Aires da Mata Machado Filho e outros pesquisadores é que fundaram a Comissão Mineira de Folclore, em 1948. Coube a ele, que sempre pesquisou o artesanato popular, organizar o museu de cultura popular da recém criada instituição. 

Mas tanto o Museu como a sede da Comissão Mineira de Folclore, e sua valiosa biblioteca, foram desalojados pelo governo Newton Cardoso com a desativação parcial da Secretaria de Cultura de Minas, em 1989. O então prefeito de Vespasiano, Marcio Murta, resolveu ceder uma casa tombada pelo patrimônio histórico para sediar o museu que passou a chamar-se Museu de Folclore Saul Martins. Vespasiano, assim, passou a sediar o museu e ser centro de atração de dezenas de atividades organizadas pela Comissão Mineira de Folclore, com cursos, palestras e seminários sobre temas folclóricos. Embora a vocação da cidade seja industrial, com número de indústrias importantes, a cidade respira o ar de cultura popular. "Mas tudo aqui é folclore", garantem Valeria Silva Araújo e Patrícia Perdigão, da Divisão de Cultura da Prefeitura. Lá pode-se ver a ciência do povo não apenas no museu – o Saul Martins, com um acervo de mais de 1 mil peças – como nas ruas da cidade, a partir de fevereiro, com os desfiles do Boi da Manta. O primeiro funciona num sobrado de 1920, residência de João Silva, um político da região, depois prefeitura e câmara municipal e desde 1991, museu; a manifestação popular existe há 70 anos e é mais antiga na região que a própria cidade, que está comemorando 56 anos de existência.



Saul Alves Martins, antropólogo 

O Museu do Folclore Saul Martins tem peças de mestres da arte popular, como os escultores Valentim Rosa e Artur Pereira, mas também obras de artistas pouco conhecidos, mas igualmente saborosas: O Diabo Sanfoneiro, de Expedito, um artista de Porto Firme (MG) ou O Casamento, de Levi Martins, esta alusiva a maldição de casamentos forçados. Acrescente-se uma expressiva coleção de cerâmicas do Vale do Jequitinhonha ou de colheres de pau, máscaras e brinquedos. Não faltam lendas na coleção do museu: vigias do local dizem ouvir coisas estranhas à noite e uma antiga moradora escutava barulho de armários inteiros de panelas caindo e, quando ia a cozinha, estava tudo no lugar.

"O museu é o ponto turístico que dá magia a uma cidade industrial que tem muita história para contar", explicam Valeria e Patrícia. Mas há problemas que assustam: goteiras na sala onde funciona a biblioteca, trincas em algumas paredes, chão que balança onde estão delicadas cerâmicas (em estantes tortas). "A casa é antiga. Estamos iniciando uma reforma do telhado, mas é trabalho para gente especializada, a preocupação é não descaracterizar o local", contam. Outras diversões? " O quarteirão fechado da praça JK. É lindo e é point", contam. "Após a missa das 20h é lugar de namoro", brincam. Diversão mesmo é o Boi da Manta. Desfiles pré-carnavalescos, com animais feitos de balaios, seguido corte caricata (os Marmotas), que remete a antigas folias dos escravos. Em 2004 os desfiles acontecem 12, 14, 17, 19, 21 de fevereiro e após o desfile tem Carnaval. Entre as alegorias, mais folclore: o Mulherão, remete a história de uma loura gigante que aparecia andando sobre fios de luz como bailarina. Já houve quem visse a mulher entrando num cemitério. "Eu nunca vi, mas acredito", brinca Valéria. Ela avisa que a cidade tem bons hotéis e teatros. Restaurantes? O Taberna ou Vila Rural, um mais simples e outro um pouco mais sofisticado.

O prédio do Museu de Folclore Saul Martins foi construído na década de 1920, mais precisamente em 1927, com arquitetura neocolonial, possui painéis e roda-tetos trabalhados pelos pintores João Lourenço e J. Gebran e restaurados pela artista vespasianense Ana Maria Machado Malaquias em 1980.O sobrado abrigou famílias que fizeram parte da história vespasianense e foi também, a primeira sede do Executivo Municipal, após a emancipação político-administrativa de Vespasiano.

O Museu do Folclore Saul Martins foi instalado no município em 1991, através de um convênio firmado entre a Prefeitura de Vespasiano e a Comissão Mineira do Folclore. Possui mais de 1.000 peças, sendo 75% de Minas, 23% do Brasil e 2% do exterior. O Museu reúne há mais de 40 anos obras valiosas como a “Pomba Gira”, do artista mineiro José Valentim Rosa; “O Caçador e a Onça”, de Artur Pereira, o maior artesão do Brasil, além de uma biblioteca de exemplares raros sobre o assunto. 

A Casa da Cultura está localizada na Rua Francisco Lima, 8, Centro.

Museu do Folclore Saul Martins – Rua Francisco Lima, 12, Centro, Vespasiano, (31) 3621-3268. De terça a sábado, de 13h às 18h. Entrada franca.


A FORÇA ECONÔMICA DO FOLCLORE

A força econômica do Folclore

Sebastião Breguez




 O mês de agosto é comemorado no mundo inteiro como o mês do Folclore, das tradições populares e das culturas regionais. A UNESCO, organização da ONU para assuntos de Educação e Cultura, situada em Paris, instituiu esta comemoração para impedir a destruição de culturas locais pelo processo de expansão industrial do mundo desenvolvido.

Mas nem só de comemorações vive a cultura popular: o Folclore tem se transformado em importante item de fonte de lucro e renda para as comunidades regionais, provocando impacto nas pequenas economias das cidades onde existem manifestações importantes. A festa do Boi-Bumbá, em Parintins (AM) é o exemplo mais importante: ela movimenta cerca de R$10 milhões nos seis a oito dias de festejos, entre junho e julho de cada ano. A festa do peão boiadeiro de Barretos (SP) tem investimentos de R$8 milhões para um lucro de R$15 milhões.

Se pensarmos que existem, em todo o País, 1,3 mil festas cadastradas pelos órgãos de turismo, o lucro estimado delas é calculado em US$3 bilhões. Estes dados já nos mostram a força econômica do Folclore que reanima as pequenas economias de localidades sem atividade econômica de peso tanto na indústria quanto no comércio. Quando se fala de investimento econômico na área da cultura no Brasil, pensa-se logo no Carnaval que sozinho já movimenta cerca de R$2 bilhões por ano, sendo que metade desta cifra fica no Rio de Janeiro.

Mas o crescimento de atividades econômicas intimamente às manifestações culturais populares também se deve ao crescimento urbano, a migração para as grandes cidades e a importância da mídia na vida das pessoas. Isto mostra o impacto que a tv como mídia teve na transformação das pessoas nos últimos anos, criando novos valores de consumo e mudando o comportamento das pessoas com relação a cultura.

É interessante observar que, no Brasil, a globalização não destruiu as culturas regionais. Mas, ao contrário, provocou um fenômeno inverso de revitalização do tradicional, da busca da natureza, das festas do interior e do consumo de manifestações populares antes desprezadas. Bem entendido com o apoio da mídia televisiva e o patrocínio de grandes empresas. O que fez com que, por exemplo, a Coca-Cola, uma empresa multinacional, compra-se a ideia da festa do Boi-Bumbá, de Parintins (AM) e associa-se sua marca à festa. As duas agremiações de bois, a do Caprichoso e do Garantido, recebem patrocínio de R$800 mil cada para incrementar o duelo.

Assim, cada apresentação destes grupos tem custo de R$3 milhões, o que é uma cifra importante se olharmos a renda da população de Parintins fora da época da festa. O guaraná Kuat, da Coca-Cola teve sua imagem fortalecida e associada à festa de Parintins, para ser consumido como produto original da Amazônia Também tem patrocinado a festa outras empresas como o Banco Bradesco, a Amazônia Celular, a Souza Cruz e outras. Dessa forma, a festa movimenta o pequeno comércio, a área de alimentação, hotelaria, artesanato, construção civil, agências de viagens e turismo. A cidade mudou em função da manifestação folclórica local. Ganhou celebridade nacional e até mesmo internacional, pois, há grande afluxo de turistas de outros países que querem conhecer mais a Amazônia e seus atrativos.


Isto vem mostrar que o Folclore não é somente o tradicional e o resíduo do ultrapassado que ainda sobrevive na sociedade moderna em função da transição forte do rural ao urbano dos países do Terceiro Mundo. Há uma forte busca de consumo de valores rurais, produtos da roça, comidas típicas e a vida mais natural. Isto se transforma em valores de consumo que mudam o ritmo da vida interiorana, aquecendo as economias e as culturas locais.

CABOCLO D'ÁGUA, NOVO MITO MINEIRO

CABOCLO D'ÁGUA, NOVO MITO MINEIRO

CABOCLO D'ÁGUA ASSUSTA MINEIROS


TV Globo e Bandeirantes mostram cenas de pânico e pavor nas cidades históricas de Ouro Preto, Mariana, Barra Longa e Diogo Vasconcelos. A população destas cidades está assustada com aparições do Caboclo d'Água que, segundo testemunhas, já fez vítimas. Uma Associação de Caçadores de Fantasmas foi criada para combater o demônio. É mais uma assombração que perturba o sono das pessoas nessas regiões.

Por Sebastião Breguez

Aparições do lendário Caboclo d'Água nas cidades de Mariana, Ouro Preto, Barra Longa e Diogo Vasconcelos está trazendo medo e pavor nos moradores. Tudo começou em junho último quando um rapaz foi nadar no rio que corta a região e foi atacado por um bicho estranho. Outras aparições aconteceram e o fato virou matéria nas Tvs Globo e Bandeirantes.

A divulgação da aparição do Caboclo d’Água está assustando a população da região de Barra Longa, Mariana e Ouro Preto, ambas localizadas no interior de Minas Gerais. Barra Longa, localizada a aproximadamente 172 quilômetros da capital Belo Horizonte, com um pouco mais de 6.000 habitantes e cortada pelo Rio Gualacho, se tornou o local de referência da aparição do tão falado Caboclo d’Água.

De acordo com o relato das diversas pessoas que asseguram terem visto o bicho, o Caboclo d’Água é uma mistura de pássaro, galinha, macaco e lagartixa, inclusive, já foi feito até um RETRATO FALADO que já circula por toda a região. Aqui o demônio das águas doces aparece com formas diferentes do que é falado no rio São Francisco e em outras regiões do Brasil, como na Amazônia e Pará.

O assunto tem tido tanta repercussão que a “Associação dos caçadores de fantasmas” da região, está oferecendo uma recompensa no valor de R$ 10.000,00(dez mil reais) para a pessoa que conseguir uma foto do assustador e aterrorizante Caboclo d’Água.

A “Associação dos caçadores de fantasmas” da região foi fundada a mais ou menos 1 ano e meio pelo Professor Milton Brigolini. A associação, composta por diversas pessoas, visa investigar os diversos relatos de aparições de criaturas estranhas em toda a região de Mariana, Ouro Preto, Barra Longa e adjacências. Diversos locais da aparição do Caboclo d’Água já foram mapeados pela “Associação dos caçadores de fantasmas” que estão usando diversos aparelhos para tentar localizá-lo, dentre eles: armadilhas, rádios, câmeras, lazer, e até GPS. A associação se reúne regularmente e os encontros são secretos para não chamar a atenção das assombrações.

 O Caboclo d'Água é um ser mitológico que ficou conhecido nas cidades que são banhadas pelo Rio São Francisco. Naquela região, desde o início do processo de navegação, os barcos eram protegidos pela Carranca que são colocadas na proa do barco e também na parte traseira. A Carranca evita que a embarcação seja atacada pelo Caboclo d'Água ou outros demônios das águas.

Na verdade, o Caboclo d'Água é um ferrenho defensor do Rio São Francisco, que assombra os pescadores e navegantes, chegando mesmo a virar e afundar embarcações. Para esconjurá-lo, os marujos do São Francisco fazem esculpir, à proa de seus barcos, figuras de amuletos para pedir proteção e evitar ataques dos monstros e demônios das águas doces. Outros lançam fumo nas águas para acalmá-lo. Também são cravadas facas no fundo de canoas, por haver a crença de que o aço afugenta manifestações de seres sobrenaturais.

Os nativos o descrevem como sendo um ser troncudo e musculoso, de pele cor de bronze e um único, grande olho na testa. Apesar de seu tipo físico, o Caboclo d'Água consegue se locomover rapidamente. Apesar de poder viver fora da água, o Caboclo d'Água nunca se afasta das margens do rio São Francisco.

Quando não gosta de um pescador, ele afugenta os peixes para longe da rede, mas, se o pescador lhe faz um agrado, ele o ajuda para que a pesca seja farta. Há relatos de que ele também pode aparecer sob a forma de outros animais. Um pescador conta ter visto um animal morto boiando no rio; ao se aproximar com a canoa, notou que se tratava de um cavalo, mas, ao tentar se aproximar, para ver a marca e comunicar o fato ao dono, o animal rapidamente afundou. Em seguida, o barco começou a se mexer. Ao virar-se para o lado, notou o Caboclo d'Água agarrado à beirada, tentando virar o barco. Então o pescador, lembrando-se de que trazia fumo em sua sacola, atirou-o às águas, e o Caboclo d'Água saiu dando cambalhotas, mergulhando rio-abaixo


quarta-feira, 3 de maio de 2017

O PRESÉPIO COMO EXPRESSÃO FOLKCOMUNICACIONAL

O Presépio como expressão folkcomunicacional

Prof. Dr. Sebastião Breguez



Folkcomunicação é uma teoria criada, na década de 1960, pelo pernambucano Luiz Beltrão, criador das Ciências da Comunicação, no Brasil, para designar os estudos dos processos comunicacionais populares nas sociedades em processo de desenvolvimento. Ela engloba duas ciências, a Comunicação e a Antropologia. Ela estuda como se dá esta comunicação entre o popular, o erudito e a comunicação de massa. Na verdade, a Folkcomunicação é a primeira teoria brasileira da Comunicação que mostra que os processos reais (verdadeiros) da comunicação popular no Brasil não se articulam na Mídia (jornal, revista, rádio, TV).O presépio como representação simbólica do nascimento de Jesus Cristo é uma das mais ricas manifestações folkcomunicacionais do ciclo natalino no Brasil e em todo o mundo. É uma forma de expressão e comunicação de fundo popular que existe com fartura em todas as cidades brasileiras. Desde o tipo de material usado na confecção do presépio, o estilo das imagens, o seu tamanho, as cores e o design. Existem presépios de madeira, de pedra, de areia, de papel jornal, de papelão, de metal, de vidro e até em ponta de lápis. O objetivo deste artigo é apresentar os presépios de Santa Luzia, cidade histórica de Minas Gerais, considerada capital brasileira dos presépios.

Organizar presépios nas festas do Natal é uma das tradições populares cultivadas em Minas Gerais com muita criatividade. Em Santa Luzia, cidade histórica, situada a 25 quilômetros de Belo Horizonte, a tradição empolga a comunidade e dezenas de presépios disputam a criatividade e a atenção da população.


Aqui estão os presépios de Helena Viana, Décio Araújo, Helenita Diniz Viana,

Igreja Matriz de Santa Luzia, Iria e João de Castro, Nicinha Diniz, Terezinha de Lázaro e Zizi Carvalho

Fazer presépios, em Santa Luzia, na Grande-BH, é uma tradição que acompanha as comemorações de Natal há dezenas de anos e uma de suas fortes expressão folkcomunicacionais.  Uma tradição herdada dos avós portugueses que se mantém viva na memória da arte popular católica dos membros da comunidade. Cada família faz questão de ter o seu presépio e faz enfeite com criatividade e aproveitamento de material da natureza do local. De suas matas, buscam-se os galhos de árvores, folhas e ervas em geral. Dos rios e lagos, a areia e as pedras que ornamentam e enfeitam. Das lojas, os tecidos que ganham luzes, cores e brilho com as mãos criativas de cada artesã familiar. Tudo é diferente, cada presépio reflete não só a fé, mas a imaginação, a sensibilidade e a criatividade de cada grupo familiar.

O presépio de Décio Araújo usa jornal velho como enfeite natalino

De 25 de dezembro a seis de janeiro, a tradição movimenta a cidade. Cada presépio é visitado com pompa por membros da comunidade que rezam ave-marias e padres-nossos em busca da paz e do bem comum. São acolhidos com festas e, no final da visita, recebem lembranças como doces, balas, bombons caseiros ou peças de artesanato local como souvenir da visita. É uma tradição centenária na cidade.

A palavra presépio significa “um lugar onde se recolhe o gado, curral, estábulo”. Contudo, esta também é a designação dada à representação artística do nascimento do Menino Jesus num estábulo, acompanhado pela Virgem Maria, São José, uma vaca e um jumento. Por vezes, acrescentam-se outras figuras como pastores, ovelhas, anjos, os Reis Magos, entre outros. Os presépios são expostos não só em Igrejas, mas também em casas particulares e até mesmo em muitos locais públicos.

Os primeiros presépios surgiram em Itália, no século XVI e foram motivados por dois tipos de representações da Natividade (do nascimento de Cristo): a plástica e a teatral. A primeira, a representação plástica, situa-se no final do século IV, e surgiu com Santa Helena, mãe do Imperador Constantino. Da segunda, a teatral, os registros mais antigos que se tem conhecimento são século XIII, com Francisco de Assis. Este último, na mesma representação, também contribui para a representação plástica, já que fez uma mistura de personagens reais e imaginários. Embora seja indubitável a importância destas representações da Natividade para o aparecimento dos presépios, elas não constituem ainda os presépios de hoje.

O nascimento de Jesus começou a ser celebrado desde o século III, data das primeiras peregrinações a Belém, para se visitar o local onde Jesus nasceu. Desde o século IV, começaram a surgir representações do nascimento de Jesus em pinturas, relevos ou frescos.

Mas somente no século XIII, mais precisamente no ano de 1223, S. Francisco de Assis decidiu celebrar a missa da véspera de Natal com os cidadãos de Assis de forma diferente. Em vez de a celebração ser no interior da igreja, foi realizada numa gruta na floresta de Greccio (ou Grécio), perto da cidade. São Francisco transportou para essa gruta um boi e um burro reais e feno. Além disto, também colocou na nela as imagens do Menino Jesus, da Virgem Maria e de São José. Com isso, ele pretendeu tornar mais acessível e clara, para os cidadãos de Assis, a celebração do Natal, só assim as pessoas puderam visualizar o que verdadeiramente se passou em Belém durante o nascimento de Jesus.

Este acontecimento faz com que muitas vezes São Francisco seja visto como o criador dos presépios. Mas os presépios tal como existem hoje só surgiram mais tarde, três séculos depois. Sua contribuição foi importante para o crescimento do gosto pelas recriações da Natividade e, consequentemente, para o aparecimento dos presépios.

No século XV, surgem algumas representações do nascimento de Cristo, contudo, elas não eram modificáveis e estáticas, ao contrário dos presépios, nas quais as peças são independentes entre si e, desta forma, modificáveis. É, nos finais do século XV, graças a um desejo crescente de fazer reconstruções plásticas da Natividade, que as figuras de Natal se libertam das paredes das igrejas, surgindo em pequenas figuras, que devido à sua plasticidade, podem ser observadas de todos os ângulos. Outra característica destas é a de serem soltas e permite criar cenas diferentes com as mesmas figuras. Surge, assim, a arte e a técnica de confecção dos presépios.

A expressão mais importante de um presépio, e a que mais facilmente permite distingui-lo das restantes representações da Natividade, é a sua mobilidade. O presépio é modificável, com as mesmas peças podem recriar-se os diferentes episódios que marcam a época natalícia. A criação do cenário que hoje é conhecido como presépio, provavelmente, deu-se já no século XVI. Segundo o inventário do Castelo de Piccolomini em Celano, o primeiro presépio criado num lar particular surgiu em 1567, na casa da Duquesa de Amalfi, Constanza Piccolomini. No século XVIII, a recriação da cena do nascimento de Jesus estava completamente inserida nas tradições de Nápoles e da Península Ibérica (incluindo Portugal).

Entre os presépios mais conhecidos, destacam-se os de Nápoles, na Itália. Eles surgiram no século XVIII e se podiam observar neles várias cenas da vida cotidiana, mas o mais importante era a qualidade extraordinária de suas figuras. Só a título de exemplo, os Reis Magos eram vestidos com sedas ricamente bordadas e usavam jóias muito trabalhadas.

No que se refere a Portugal, não é nenhum exagero dizer que ali foram feitos alguns dos mais belos presépios de todo o mundo, destacando-se os realizados pelos escultores Machada de Castro e Antônio Ferreira, no século XVIII. Atualmente, o costume de armar o presépio, tanto em locais públicos como particulares, ainda se mantém em muitos países em todo o mundo. Contudo, nas grandes cidades, com o surgimento da árvore da Natal, os presépios, cada vez mais, ocupam um lugar secundário nas tradições natalinas. Nas pequenas cidades do interior, as famílias fazem presépios grandes ou pequenos para animar a festa de natal das comunidades e cultivar o sentimento de convivialidade entre as pessoas. O presépio, assim, é um ponto de encontro familiar com os que moram fora, os ausentes e também grupos da região como as pastorinhas.

No Brasil, herdamos a tradição portuguesa de organizar presépios nas festas natalinas. Assim, desde o Brasil Colônia eram comuns presépios nas igrejas brasileiras e a tradição se espalhou para as capelas e casas de pessoas ilustres. Também não se pode esquecer as influências religiosas e culturais que recebemos da Espanha, França e outros países.

Nossas pesquisas sobre a origem do presépio brasileiro mostram que, em 1532, mais ou menos, o padre José de Anchieta, ajudado pelos índios, já modelava em barro pequenas figuras representando o presépio, com o propósito de incutir-lhes esta tradição e honrar o menino Jesus no dia de Natal. Mas não há a menor dúvida de que foi entre os séculos XVII e XVIII que os presépios foram efetivamente introduzidos e difundidos no Brasil pelos padres jesuítas, portugueses, franceses e espanhóis, que aqui aportaram para catequese do gentio.  Inicialmente, copiando ou se inspirando nos modelos importados de Portugal e Espanha, a arte presepista brasileira só bem mais tarde adquiriu uma fisionomia própria e a riqueza de linhas e de material que marcaram o barroco nacional.

O índio, o negro, o caboclo, a fauna, a flora, a mitologia afro-americana, usos e costumes foram transformando as influências recebidas em cenas comuns da vida diária, nas quais se destacam lavadeiras carregando as suas trouxas ou lavando roupas no rio; caçadores, fazendeiros, colonos e trabalhadores cuidando de animais, tirando leite, ou montados a cavalo percorrendo o caminho; mulheres dando milho às galinhas, cuidando dos filhos ou tirando água no poço; moinhos, cisternas, fontes e monjolos movidos pelo riozinho sinuoso que, escorregando por baixo das pontes, passa entre capinzais, representados pelo alpiste ou arroz semeados de fresco. Tudo isso, projetando-se na paisagem com seus montes, árvores e casinhas de todo gênero, pintadas com cores vivas e a igrejinha bem iluminada.

O presépio do Convento de Macaúbas (1714), em Santa Luzia, está entre os primeiros do Brasil. A tradição de organizar presépios em locais públicos como igrejas ou praças públicas foi traço característico no Brasil do Século XVIII.  Mas Santa Luzia eternizou esta arte de construir presépios para festejar o Natal no Século XX. Aí os presépios passaram a ser centro de convivialidade e encontro, não só das famílias luzienses, mas de toda a comunidade e também de visitantes. A sua expressividade foi tão grande que a Prefeitura de Santa Luzia institucionalizou a visitação pública nas famílias e publicou um Guia da Visitação aos Presépios de Santa Luzia com indicação dos mais importantes com nome do artesão, endereço, telefone e horário. Daí dizer-se que Santa Luzia é a Capital Brasileira dos Presépios. Nenhuma cidade no Brasil cultiva esta arte com tanta profundidade e expressão artístico-religiosa como a população desta cidade mineira.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

BREGUEZ, Sebastião (Org) – Santa Luzia, uma cidade sob a luz do presépio, BH, Edições Carranca, 2010.
BREGUEZ, Sebastião – Santa Luzia, Capital Brasileira dos Presépios, BH, Edições Saci, 2009.


terça-feira, 25 de abril de 2017

Comunicação, Folclore e Globalização

Instituto Gutenberg

Comunicação, folclore e globalização

Os meios de comunicação de massa estão destruindo o folclore ou a sociedade está sendo formada por uma só cultura?1


Sebastião Breguez
A evolução gradativa e posteriormente acelerada do modo de produção capitalista a partir da Revolução Industrial provocou sérias mudanças no contexto global do século XX. De uma sociedade onde a organização social e político-econômico era artesanal, agrícola e feudal, passamos a uma sociedade cuja economia e instituições radicam essencialmente na indústria e na produção em grande escala. Essa mudança de infra-estrutura provoca, por sua vez, mudanças na super-estrutura, pois ambas estão em ampla interação, modificando toda ideologia, valores, modos de pensar, agir e sentir, modos de ver as coisas, sem falar do próprio ambiente ecológico. Foi o surgimento da Sociedade de Consumo. A Revolução Industrial iniciada na Europa e exportada para vários outros países do Mundo foi constituindo, na medida de seu desenvolvimento, fases avançadas processo industrial onde, por exemplo, hoje o mundo inteiro se integra progressivamente num mercado de consumo internacional, buscando cada vez mais enormes gamas de bens. A sociedade de consumo deu primazia ao homem consumidor e todas as classes sociais foram chamadas a consumir.
Os produtos são baratos, pois são feitos em larga escala, atendendo a uma enorme variedade de consumidores com diversos “status” e poder aquisitivo. Paredes de propaganda, anúncio de jornais, rádios, televisões, cinemas, tudo a fazer a apresentação da cultura de massa e de seus produtos. Os anúncios, as relações públicas, a doutrinação, o obsoletismo planejado não são mais custos improdutivos e sim elementos básicos da produção. Essa sociedade tecnológica se caracteriza, ainda, pela automação progressiva do aparato material e intelectual que regula a produção, a distribuição e o consumo. Um aparato que se estende também às esferas tanto particulares e públicas mas suas esferas políticas, econômicas e culturais. O aparato tecnológico (no qual as ciências se converteram em fatores necessários para o processo de produção e consumo, principalmente a matemática e também a psicologia e a sociologia) alcança um grau de produtividade no trabalho que torna possível o aumento do nível de vida a uma larga escala da população que antes se considerava “não privilegiado”. Nascida nessa época, como fruto da infra-estrutura capitalista, a Cultura de Massas, reúne culturas diferentes e serve de elo de ligação entre essas culturas numa constante interação, englobando a um só golpe a cultura popular (ou folclore) e a cultura erudita.2
A Cultura popular pertence estruturalmente a uma classe social definida dentro do sistema de produção capitalista, que é o povo, com seus modos de pensar, agir e sentir e comunicar seu universo cultural. Aqueles que apenas tem acesso aos modos de produção capitalista e não posição de mando ou de influência.3
A cultura erudita, dos letrados, dos burgueses, pertence a uma classe social, também definida e caracterizada pelo modo de produção capitalista que são os proprietários dos meios de produção. Aqueles que apenas têm posição de mando e determinam os próximos rumos culturais, políticos e sociais, que por serem determinados pela infra-estrutura econômica estão sujeitos à ela4. A evolução histórica do homem sempre deu destaque a dois tipos principais de conteúdos culturais. A popular ou folclórica alicerçada num processo empírico e iletrado de acumulação de experiência e inovações transmitidas de pai a filho, de irmão a irmão, cuja transmissão é pela vivência, é oral e se baseia na proximidade. A cultura erudita, ao contrário, é alicerçada com bases letrada, em normas científicas, em relação de causa e efeito.5 Até a época de Gutenberg o patrimônio cultural da humanidade era transmitido e difundido em esferas muito estreitas e distantes uns dos outros. A cultura erudita era iniciada somente aos filhos da aristocracia e os poucos que conseguiam ter proximidade ao círculo hermético da elite. A cultura popular, ao contrário, era transmitida e era consumida pela grande maioria da população que constituíam as classes subalternas. Ao lado da medicina clássica, dos proprietários dos meios de produção, (os servos, os camponeses, os escravos, os trabalhadores braçais, etc). Ao lado do teatro erudito existia o teatro popular. Ao lado das manifestações literárias da elite estavam as manifestações escritas do povo. Assim por diante.6 Com a inovação da Imprensa, capitalistas interessados em ampliar sua acumulação, o modo de produção daquela época foi transformando, também, a produção cultural tendo como ideologia formar um consumidor geral sem distinção de classes. A produção em massa começou a iniciar-se também no setor de utilidades não imediatas. A cultura de massa, então foi formando subsídios para seu progresso cada vez mais espantoso. Uma cultura que reúne os símbolos, normas, valores, mitos, imagens, etc., de um universo popular e um universo erudito. Até, então esses universos culturais mantinham uma posição inter-comunicativa mas distante um do outro. Um exercia influência e pequenas mutações no patrimônio genético - cultural do outro sem que houvessem mudanças estruturais e/ou morfológicas radicais. Acontecia que fatos da vida popular eram inseridos através de obras artísticas da cultura erudita através da pesquisa, contatos e ás vezes vivência mesmo. E isso vemos em várias obras literárias de escritores antigos, músicos, pintores e escultores. Por outro lado, o simbolismo dos letrados era incorporado ao simbolismo do povo pelas influências de domínio, mando, imposição, doutrinação (o caso dos missionários cristãos ilustra bem esse exemplo).
Os exemplos são muitos, mas bastaria caracterizar, neste trabalho, por exemplo, o fandango, que é uma dança dramática encontrada no Brasil, em Alagoas, e que é uma variante de velhos costumes musicados portugueses. Mesmo a literatura de cordel, que um crítico literário norte-americano disse que Jorge Amado usou para seus romances, é um tipo de comunicação escrita do povo, elaborada e adaptada de formas poéticas de portugueses e espanhóis (atualmente é muito difundido no mundo inteiro, e existe inúmeros estudos a respeito). Roger Pinon, Professor belga licenciado em filosofia germânica pela Universidade de Liége, tem uma série de trabalhos a respeito. Veja por exemplo. “El Cuento Folkórico”, Editorial Universitária de Buenos Aires, 1965. No Brasil, a região mais rica em manifestações do folclore literário é o nordeste.7
Atualmente, o processo de intercomunicação da cultura de massa não permite distinção entre cultura popular e cultura erudita. O folclore foi perdendo suas características de “vivant” assim como também a tendência é a de formação de uma sociedade unicultural. Estamos assistindo a uma aculturação do folclore e da cultura burguesa.8
O rádio, a televisão, o cinema, o jornal, as revistas, as publicações em geral, estão matando o folclore na medida em que as camadas populares têm acesso aos meios de comunicação. Na medida em que uma sociedade subdesenvolvida vai passando pelo processo de desenvolvimento e industrialização, onde as condições pré-capitalistas de existência, as estruturas sociais arcaicas, o analfabetismo, o pauperismo, a sub-higiene, a fraca alimentação, vão sendo substituídas por condições mais compatíveis com a dignidade humana.9 Por isso, diz Édison Carneiro que as manifestações coletivas do folclore são encontradas em regiões brasileiras, como por exemplo o litoral paraense, o interior da Paraíba, o Recôncavo Baiano, zonas de notório atraso econômico, de pobreza crônica do povo, de condições pré-capitalistas de existência.10
Roger Bastide 11 diz que o folclore está morrendo justamente no momento em que se tornou ciência no Ocidente. O folclore está morrendo após as transformações econômicas fundadas no modo de produção capitalista. Na França, por exemplo, o Professor Varagnac conseguiu demonstrar que o folclore foi destruído após a introdução do maquinismo na agricultura e não conforme se pensava que fosse somente o serviço militar, a escola primária, e o desenvolvimento das redes de estradas em 1850. O Folclore, então, tende a reduzir-se a grupos esparsos da população urbana como os grupos infantis e as subpopulações urbanas de favelados.12
A introdução da máquina na agricultura, a aculturação dos “mass-media”, cujo principal amigo do “folk” é o radinho de pilha, destroem a harmonia existente e impede a continuidade das manifestações populares como por exemplo, ritos como o mutirão, o boi-bumbá, as cangadas, os reisados, a medicina rústica, as advinhas, os provérbios, as crendices e superstições, a literatura de cordel, etc.
Com a introdução do maquinismo no campo, novas relações de produção passam a caracterizar as estruturas sociais e econômicas e isso impõe novas ideologias. Como o folclore está situado na superestrutura da sociedade, mudando a infra-estrutura econômica, mudanças também se efetuarão na superestrutura. O trabalhador rural marginalizado pela máquina, no campo, emigra, para grandes centros urbanos onde espera e anseia por melhores condições de vida. No centro urbano, a mão-de-obra especializada caracteriza o mercado de trabalho e o homem tem que ter uma formação técnica, mínima que seja (como pintos, pedreiro, marceneiro, etc.), dentro de uma especialidade para se manter. Na medida que o trabalhador rural se insere nas novas relações de produção, vai interiorizando comportamentos “dos civilizados” e vai abandonando suas formas rústicas de pensar, agir e sentir, vai se “civilizando” embora isso demande tempo.13
Desde 1957, McLuhan se referia a um folclore de laboratório. Para ele, a nossa cultura é totalmente uma cultura de laboratório. É programada por técnicos da publicidade, do rádio, da televisão, do cinema, do jornal, da universidade, dos departamentos de psicologia social. Após elaborada, a cultura de massa é posta ao consumo, a circulação (observando que ela é elaborada em função de infra-estrutura capitalista) para as camadas sociais que existem na estrutura que lhe serviu de ventre. A cultura de massa, então, para se firmar, se serve de mecanismos diversos de controle social seja na padronização dos gostos seja na produção em série de produtos baratos que são impostos à compra pelo consumidor ideal. Portanto, para McLuhan, o folclore atual, assim como toda cultura, é fruto de laboratório, e não aquela forma “vivant” de que nos fala Albert Marinus, folclorista belga,14 que caracterizava as comunidades aldeãs antes de Gutenberg.
A indústria do disco promoveu a massificação das obras de Beethoven, Chopin, Wagner, Mozart, Straus ou Schubert, para não citar outros. A indústria do livro promoveu a produção em massa de Homero, Dante, Shakespeare, Voltaire, Dumas, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Jorge Amado e outros. A “ofsett” permite a produção em milhares de exemplares de quadros de Dali, Picasso, Da Vinci, Monet, Casanova, Renoir e outros. A televisão pega isso tudo e revoluciona ainda mais: Obras artísticas, musicais e teatrais estão diariamente pelos programas de televisão e cinema.15
O folclore está se fundindo na cultura de massa? A sociedade está sendo formada por uma só cultura? Ou será que o folclore é fruto da estratificação social e da desigualdade na difusão das conquistas culturais da humanidade?
O folclore tem uma função social e é questão muito importante saber porque o povo faz o folclore e por que se realiza nele. Acredito que aí chegaremos ao ponto em que se fundamenta, se estrutura as diferenças sociais, econômicas e políticas que dividem os homens.
Sebastião Geraldo Breguêz é professor da UNIVALE

(1) O conceito de cultura que adotamos neste trabalho é o mesmo que consta no “Dicionário Filosófico Abreviado, de M. Rosental e P. Iudin, Ediciones Pueblos Unidos, Montevidéu, 1950, que diz o seguinte: “Cultura - Conjunto dos valores materiais e espirituais criados pela humanidade, no curso de sua história. A cultura é um fenômeno social que representa o nível alcançado pela sociedade em determinada etapa histórica: progresso, técnica, experiências de produção e de trabalho, instrução, educação, ciência, literatura e arte, e instituições que lhes correspondem. Em um sentido restrito, compreende-se sob o termo cultura, o conjunto de formas da vida espiritual da sociedade que nascem e se desenvolvem à base do modo de produção dos bens materiais historicamente determinado. Assim, entende-se por cultura, o nível de desenvolvimento alcançado pela sociedade na instrução, na ciência, na literatura, na arte, na filosofia, na moral, etc., e as instituições correspondentes. Entre os índices mais importantes do nível cultural, e em determinada etapa histórica, é preciso notar o grau de utilização dos aperfeiçoamentos técnicos e dos desenvolvimentos científicos na produção social, o nível cultural e técnico dos produtores dos bens materiais, assim como o grau de difusão da instrução da literatura e das artes entre a população” (pág. 104). Segundo Édison Carneiro, (em Dinâmica do Folclore, Editora Civilização Brasileira, 1965) por folclore entende-se um conjunto de modos de sentir, pensar e agir peculiares às camadas populares das sociedades civilizadas e que alguns folcloristas estendem o campo do folclore a todas as sociedades, até mesmo as primitivas. Diz ainda que a existência de graus diversos da mesma cultura é necessária para caracterizar o fenômeno.(2) José Marques de Melo num artigo publicado na rev. VOZES (outubro de 1969, ano 63, nº 10) diz que a cultura de massas atua como veículo de interação entre a cultura clássica e a cultura popular estimulando o intercâmbio simbólico entre elas, e, ao mesmo tempo, extraindo de ambas códigos e elementos místicos que incorpora ao seu próprio acervo e os retribui sob a forma de novas influências”. A evolução histórica do homem sempre deu destaque a dois pólos distintos de estágios culturais numa mesma sociedade cuja natureza de organização e estratificação e cuja determinação está no modo de produção determinado historicamente.
(3) O folclore pertence a superestrutura da sociedade (para maiores detalhes vide livro de Édison Carneiro — “A Dinâmica do Folclore”), já citado, página 81 cuja determinação está na infra-estrutura que estabelece relações produtivas entre os homens. “Na produção social dos homens, estes estabelecem entre si determinadas relações, indispensáveis e independentes de sua vontade; estas relações de produção correspondem a um estágio de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade daquelas relações de produção constituiu a estrutura econômica da sociedade — verdadeira base. Sobre ela, ergue-se a superestrutura legal e política, à qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material determina o caráter geral dos processos sociais, políticos e espirituais da vida” (Karl Marx, Prefácio de “CONTRIBUIÇÃO À CRÍTICA DE ECONOMIA POLÍTICA”, in Marx-Engels, OBRAS ESCOLHIDAS, Sigla XXI).
(4) Antônio Gramsci (“Os Intelectuais e formação da Cultura”, Editora Civilização Brasileira, 1968) diz: “Cada grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo, de um modo orgânico, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e no político: o empresário capitalista cria consigo e técnico da indústria, o cientista da economia política, o organizador de uma nova cultura, de um novo direito, etc. Deve-se notar o fato de que o empresário representa uma elaboração social superior, já caracterizada por uma certa capacidade dirigente a técnica...”
(5) “Sociologicamente, a cultura clássica e a cultura popular situam-se em pólos extremos. A primeira é uma cultura própria das elites, dos grupos privilegiados que detêm o poder uma sociedade, ou melhor as classes dominantes. A segunda é uma cultura peculiar à grande massa populacional que constitui o pólo dos dominadores na estrutura da organização social” (José Marques de Melo, “Comunicação, Cultura de Massas, Cultura Popular” in Revista VOZES, já citado. Édison Carneiro, em “Sabedoria Popular do Brasil” diz que o campo do folclore se estende a todas as manifestações da vida popular como o traje, a comida, a habitação, as artes domésticas, as crendices, os jogos, as danças, as representações, a poesia anônima, o linguajar, revela a Existência de todo um sistema de sentir, pensar e agir, que difere essencialmente do sistema erudito, oficial, predominante nas sociedades de tipo ocidental”. E tal sistema reflete as diferenças de classes sociais (de educação, e de cultura) que divide os homens. (6) Existia e ainda existe. Ainda existe o teatro popular com suas danças dramáticas como o Bumba-Meu-Boi, o reisado, etc. Ainda existe a medicina dos excretos. Ainda existe a literatura de cordel. Ainda existem as diferenças de classes...
(7) A literatura de cordel é encontrada em feiras. Em Governador Valadares, cidade que sempre recebe imigrantes nordestinos e baianos a procura de melhores condições de vida, encontramos inúmeros exposições de literatura de cordel nas praças, ruas e principalmente no Mercado Municipal. Os livretos de cordel vinham pendurados em cordas. O nome cordel é derivado de corda. É através das cordas que são feitas as suas exposições. São publicações em prosa e verso num português arcaico onde o povo transmite as suas dores e os seus risos. A literatura de cordel tem sido alvo de inúmeras depredações, principalmente de editores paulistas. Eles se apossam da forma e do conteúdo da prosa popular e publicam os livretos com o português civilizado”. “Prostituem” a riqueza do povo.
(8) Essa idéia de sociedade unicultural vai de encontro com a própria organização e estruturação da sociedade, que é estratificada. Edgar Morin partindo da idéia de cultura como “complexo de símbolos, normas e imagens” encontra inúmeras culturas que penetram no indivíduo em sua vida diária. Existe, para Morin, uma cultura religiosa, uma cultura nacional, uma cultura clássica, uma cultura popular, uma cultura de massas.
9) O tradicional em folclore recebe, com o “mass-media”, uma série de impactos. E vai interiorizando formas novas, secularizadas embora o conteúdo permaneça. O folclore como tradição está morrendo, porque está se remodelando.
(10) As manifestações coletivas do folclore tendem a morrer. O que caracteriza um rito como o mutirão, por exemplo, é a coesão do grupo, do povo que se utiliza dele. Na medida que as condições capitalistas de existência, ou para ser mais exato, o modo de produção capitalista é introduzido numa sociedade “folk” desagrada a coesão grupal por que estabelece novos tipos de relacionamento entre os elementos dessa comunidade.
(11) Prefácio de “Arte, Folclore e subdesenvolvimento”, Souza Barros, Editora Paralelo / MEC.
(12) Édison Carneiro critica essa posição de André Varagnac. Diz ele que Varagnac se negou a analisar a questão de permanência dos modos de sentir, pensar e agir que constituem o folclore. Vide observação 10.
(13) Vide notas 10 e 12. Aqui em Belo Horizonte, encontramos, para nossa surpresa, em muitas favelas, comportamentos de “folk” que estão ainda bem vivos. Numa favela na Nova Suíça, por exemplo, encontramos inúmeras famílias que faziam aborto com mentrasto. A mulher, na época em que tem certeza da gravidez, toma inúmeras vezes ao dia chá de mentrasto e usa essa planta para colocar no ventre — o que muitas vezes causa uma ferida e morte da paciente. Essa mesma família tinha resquícios de comportamento indígena. Após a gravidez, o marido se sente na obrigação de ficar oito dias acamado, junto com a criança. Se não fizer isso, ele fica com uma insuportável dor de dente. Pesquisando outras favelas, encontramos o mesmo comportamento. Essas famílias são oriundas do interior de Minas Gerais e muitas delas do meio rural onde trabalhavam como meeiras com proprietários de terras que lhe cediam o terreno para que ele cultivassem.
(14) É claro que as observações de McLuhan foram realizadas num país altamente industrializado onde o “mass-media” é mais influente porque o poder aquisitivo da população permite uma série consumo de produtos culturais. Muito do folclore que está aparecendo como secularização do tradicional é fruto da influência do mass-media. Entretanto, cabe observar como Édison Carneiro, que a cultura popular se nutre de desejos de bem-estar econômico e social e constitui uma forma de reivindicação social e é expressão das aspirações populares e suas expectativas frente à realidade social. Povo não é passivo frente aos meios de comunicação de massa que seriam ativos para McLuhan.
(15) Cabe aqui observar que a televisão apresenta obras artísticas. Entretanto, ela as apresenta destituídas de seu valor estético original, porque esvazia totalmente a obra de arte. Mas apresenta... embora ôca.
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Boletim Nº 28 Série eletrônica
Setembro-Outubro, 1999